A história da doença celíaca começou muito antes de existirem microscópios, exames de sangue ou qualquer conhecimento sobre o sistema imunológico. Durante quase dois milênios, médicos observaram pacientes que comiam normalmente, mas continuavam emagrecendo, enfraquecendo e perdendo nutrientes sem uma explicação visível.
Hoje, caminhar pelos corredores de um supermercado e encontrar prateleiras inteiras de produtos rotulados como “sem glúten” parece algo banal. O termo entrou no vocabulário cotidiano, nas embalagens, nos cardápios e até nas conversas entre pessoas que nunca abriram um livro de gastroenterologia.
Para a maioria da população, o glúten não representa um problema. Para indivíduos geneticamente suscetíveis, porém, determinadas proteínas presentes no trigo, no centeio e na cevada podem desencadear uma resposta imunológica capaz de lesar o intestino delgado.
Sabemos disso hoje. Durante quase dois milênios, ninguém sabia.
Pacientes — sobretudo crianças — definhavam sem uma explicação clara. Apresentavam palidez, perda muscular, diarreia volumosa e um abdômen desproporcionalmente distendido. Em 1935, os médicos argentinos Recalde Cuestas e Travella descreveram essa aparência de maneira quase brutal: “um balão sustentado por dois gravetos”.
A imagem era dramática, mas clinicamente precisa. O corpo recebia alimento, enquanto os tecidos permaneciam privados de nutrientes.
Atualmente, a investigação costuma começar com exames sorológicos, especialmente os anticorpos antitransglutaminase tecidual. Ainda assim, o diagnóstico não se resume a “um simples exame de sangue”. Exige interpretação clínica, dosagem adequada de imunoglobulina A, exclusão de diagnósticos diferenciais e, em muitos adultos, confirmação por biópsias duodenais.
Durante séculos, nem sequer existia a noção de que uma proteína alimentar pudesse provocar uma doença autoimune. A chamada afecção celíaca era uma espécie de fantasma clínico: os médicos reconheciam sua presença, mas não conseguiam enxergar sua causa.
História da Doença Celíaca: a Origem do Termo “Koiliakos”
A palavra “celíaca” não nasceu na medicina moderna. Ela vem do grego koiliakos (κοιλιακός), derivado de koilia, termo que pode significar ventre, cavidade abdominal ou intestinos.
Em sua origem, o nome era essencialmente descritivo. Um indivíduo “celíaco” era alguém que sofria do ventre — ou, numa tradução mais livre, alguém atormentado pelas entranhas.
A medicina antiga não dispunha de microscópios, sorologias, endoscópios ou conceitos de imunidade adaptativa. O nome não pretendia explicar o mecanismo da doença. Apenas indicava onde o sofrimento parecia se concentrar.
Talvez aí esteja uma das curiosidades mais bonitas dessa história. Nossa compreensão da doença mudou quase por completo, mas a palavra atravessou os séculos. Passou do grego ao latim, chegou às línguas modernas e continua carregando a memória de uma observação feita à beira do leito.
O termo sobreviveu justamente porque era simples. Não dizia por que a pessoa adoecia; dizia apenas onde a doença se manifestava.
Doença Celíaca na Antiguidade: o Olhar de Areteu
O primeiro relato reconhecível daquilo que hoje chamamos doença celíaca costuma ser atribuído a Areteu da Capadócia. É preciso alguma cautela: não podemos diagnosticar retrospectivamente um paciente da Antiguidade com os critérios atuais. Ainda assim, a semelhança clínica é impressionante.
A data exata em que Areteu viveu permanece discutida. Algumas fontes antigas e populares o situam no século I d.C., por vezes durante o reinado de Nero. Muitos historiadores contemporâneos consideram mais provável que tenha exercido a medicina no século II, talvez por volta de 150 d.C.
Nascido na Capadócia, região da Ásia Menor que hoje pertence à Turquia, Areteu escreveu em grego jônico e procurou recuperar a tradição clínica de Hipócrates. Pouco sabemos sobre sua vida, sua formação ou os locais onde trabalhou. Há quem suponha que tenha estudado em Alexandria e praticado em Roma, mas essas informações não estão solidamente documentadas.
Ele costuma ser associado à Escola Pneumática, que atribuía grande importância ao pneuma, uma espécie de sopro ou princípio vital. Outros historiadores, porém, o consideram mais eclético do que propriamente pneumático. Areteu parecia menos interessado em defender uma escola filosófica do que em observar cuidadosamente o doente.
Para a fisiologia da época, a digestão dependia de um “calor natural”. O estômago funcionaria como um forno: nele ocorria a pepsis, o cozimento ou a transformação do alimento. Depois viria a anadosis, sua absorção e distribuição pelo organismo.
Areteu imaginou que a afecção celíaca surgia quando esse calor se enfraquecia. O alimento permaneceria parcialmente “cru”, atravessando o corpo sem ser devidamente aproveitado.
Em sua obra Sobre as Causas e os Sintomas das Doenças Crônicas, descreveu a eliminação de alimentos mal digeridos, fezes pálidas, volumosas e malcheirosas, fraqueza intensa e perda progressiva da capacidade de realizar as atividades habituais.
Sua expressão mais marcante talvez seja a “fome do corpo”. O paciente comia, mas os tecidos continuavam famintos.
A explicação baseada no esfriamento digestivo estava errada, naturalmente. A observação clínica, não. Sem conhecer vilosidades, enzimas, linfócitos ou anticorpos, Areteu percebeu o fenômeno essencial: havia alimento no intestino, mas o organismo não conseguia aproveitá-lo.
Era, em outras palavras, uma descrição precoce da malabsorção.
A História da Doença Celíaca Depois de Areteu
Depois de Areteu, a história torna-se menos nítida. Seus escritos circularam pouco e, durante muitos séculos, exerceram influência bem menor do que as obras de Hipócrates e Galeno.
Galeno, seu grande contemporâneo — ou quase contemporâneo, dependendo da datação aceita — não mencionou Areteu nominalmente. Já se sugeriram rivalidades profissionais, divergências entre escolas e até uma convenção que desaconselharia citar autores vivos. São hipóteses interessantes, mas faltam documentos para transformá-las em explicações seguras.
O fato é mais simples: Galeno dominou a medicina ocidental e bizantina, enquanto Areteu permaneceu nas margens.
Seus textos ressurgiram com maior força no Renascimento. Em 1552, Julius Paulus Crassus publicou em Veneza uma tradução latina de suas obras. Aquela edição ajudou a recolocar suas descrições clínicas em circulação entre os médicos europeus.
Poucas décadas depois, em 1600, o médico aragonês Gerónimo Soriano publicou o Método y Orden de Curar las Enfermedades de los Niños, um dos primeiros tratados pediátricos escritos em espanhol.
Ao discutir os diferentes tipos de diarreia, Soriano descreveu uma forma na qual aquilo que era evacuado aparecia “com pouca alteração ou mutação”. Chamou-a de lienteria celíaca.
A linguagem ainda pertencia à medicina pré-moderna, mas a percepção era perspicaz: o intestino não eliminava apenas resíduos. Parecia deixar escapar o próprio alimento, quase sem transformá-lo.
Mesmo assim, faltava organizar essas observações em uma entidade clínica consistente. Isso só ocorreria no final do século XIX.
História da Doença Celíaca: Samuel Gee e a Dieta
Em 5 de outubro de 1887, o médico inglês Samuel Gee apresentou uma palestra no Hospital for Sick Children, em Londres. O conteúdo foi publicado no ano seguinte, no St. Bartholomew’s Hospital Reports, sob o título On the Coeliac Affection.
Representação do Inverno da Fome nos Países Baixos, entre 1944 e 1945. Enquanto a escassez de pão castigava a população, Willem-Karel Dicke observou que crianças com doença celíaca melhoravam sem o trigo — uma pista decisiva para desvendar o papel do glúten.
Esse texto costuma ser considerado a primeira descrição clínica moderna da doença celíaca.
Gee reconheceu que a condição podia afetar pessoas de diferentes idades, embora aparecesse principalmente em crianças pequenas. Descreveu fezes volumosas, pálidas, amolecidas, espumosas e extremamente malcheirosas. Também observou distensão abdominal, emagrecimento e prejuízo do crescimento.
Mais importante: suspeitou que a solução estaria na alimentação.
“Se o paciente puder ser curado, deve ser por meio da dieta”, escreveu. Acrescentou que a ingestão de alimentos farináceos deveria ser pequena.
Foi uma intuição extraordinária, mas ainda incompleta. Gee não sabia se o problema estava no amido, na farinha como um todo ou em algum componente específico dos cereais. E, como tantos médicos de sua época, testou dietas que hoje parecem bastante peculiares.
Um de seus pacientes, por exemplo, teria “prosperado maravilhosamente” ao consumir diariamente cerca de uma pinta dos “melhores mexilhões holandeses”. Quando a temporada dos moluscos terminou, a criança recaiu. No ano seguinte, a tentativa não produziu o mesmo resultado.
A história dos mexilhões pode soar quase cômica. Na verdade, revela o problema enfrentado por Gee: ele havia percebido que a dieta modificava a doença, mas ainda não conseguia separar o alimento benéfico daquele que simplesmente substituía o verdadeiro agressor.
Outras dietas surgiriam nas décadas seguintes. A mais famosa foi a dieta da banana, proposta por Sidney Haas em 1924. Algumas crianças realmente melhoravam — provavelmente porque, ao comer bananas no lugar de pães e cereais, reduziam inadvertidamente a exposição ao glúten.
O tratamento parecia funcionar pelo motivo errado.
Doença Celíaca e Glúten: a Descoberta de Dicke
A solução começou a surgir com o pediatra holandês Willem-Karel Dicke. Muito antes do episódio mais famoso dessa história, ele já investigava a relação entre a doença e certos alimentos.
Entre 1934 e 1936, Dicke iniciou experiências com dietas sem trigo. Relatos de famílias também chamaram sua atenção: algumas crianças melhoravam quando deixavam de comer pão e voltavam a adoecer após consumi-lo. Em 1941, ele publicou suas primeiras observações sobre o tratamento dietético da síndrome de Gee-Herter.
A guerra transformaria essa suspeita em algo difícil de ignorar.
No chamado “Inverno da Fome”, entre 1944 e 1945, a população dos Países Baixos enfrentou uma escassez devastadora. Bloqueios e dificuldades de transporte praticamente fizeram desaparecer a farinha de trigo. Pessoas recorreram a batatas, mingaus ralos e até bulbos de tulipa para sobreviver.
Em meio à tragédia, Dicke percebeu um paradoxo. Enquanto a desnutrição castigava a população, várias crianças com doença celíaca melhoravam. Algumas ganharam peso, a diarreia diminuiu e a mortalidade, historicamente elevada, caiu de maneira acentuada.
Quando o pão reapareceu, depois da chegada dos alimentos enviados pelos Aliados e da libertação do país, muitas dessas crianças voltaram a adoecer.
O episódio ficou conhecido como um “experimento natural”, embora o termo quase pareça frio demais diante de tanto sofrimento. Também não devemos tratá-lo como a única prova da hipótese. Dicke já suspeitava do trigo antes da guerra, e ainda seriam necessários experimentos dietéticos controlados para demonstrar a relação.
Nos anos seguintes, ele ofereceu diferentes cereais a pequenos grupos de pacientes, acompanhou peso, sintomas e excreção de gordura nas fezes. Sua tese, publicada em 1950, mostrou que as farinhas de trigo e centeio agravavam a doença, enquanto o amido de trigo purificado parecia ser tolerado.
Isso enfraquecia a ideia de que o problema fosse simplesmente o amido.
Com os pediatras H. A. Weijers e o bioquímico J. H. van de Kamer, Dicke demonstrou que a retirada do trigo reduzia a esteatorreia e que sua reintrodução voltava a aumentá-la. Paralelamente, o grupo de Charlotte Anderson, em Birmingham, ajudou a localizar o agente nocivo na fração proteica da farinha.
O culpado era o glúten — mais precisamente, determinadas proteínas do trigo e proteínas relacionadas presentes no centeio e na cevada.
A descoberta, assim, não nasceu de uma única observação milagrosa. Foi construída por Dicke ao longo de anos, refinada por seus colaboradores e confirmada por outros grupos.
Diagnóstico da Doença Celíaca: Biópsia e Vilosidades
Identificar o alimento desencadeante resolveu apenas parte do mistério. Ainda faltava descobrir o que acontecia no intestino.
Em 1954, o médico britânico John Paulley estudou amostras de jejuno obtidas durante cirurgias de adultos com esteatorreia idiopática — muitos deles provavelmente celíacos. Ele encontrou uma mucosa inflamada e achatada, muito diferente da superfície intestinal normal.
Em condições saudáveis, o intestino delgado apresenta milhões de vilosidades, pequenas projeções semelhantes a dedos. Elas ampliam enormemente a superfície disponível para absorver ferro, folato, cálcio, gorduras, vitaminas, carboidratos e proteínas.
Na doença ativa, essas estruturas ficam encurtadas ou desaparecem. As criptas se alongam, linfócitos se acumulam no epitélio e a área absortiva diminui. O “balão sustentado por dois gravetos” finalmente começava a ganhar uma explicação anatômica.
Havia, porém, um obstáculo: não era razoável realizar uma cirurgia apenas para colher um fragmento do intestino.
A solução veio com os primeiros instrumentos de biópsia peroral. Marcelo Royer e colaboradores desenvolveram em Buenos Aires, em 1955, uma técnica de biópsia duodenal por aspiração e controle radioscópico. Margot Shiner apresentou de forma independente seu método em Londres, em 1956.
No ano seguinte, William Crosby e Heinz Kugler descreveram uma cápsula de biópsia que se tornaria amplamente utilizada. O paciente engolia o dispositivo conectado a um tubo; quando a cápsula alcançava o intestino delgado, um mecanismo de sucção e corte retirava uma pequena amostra da mucosa.
Pela primeira vez, os médicos conseguiam observar a lesão intestinal sem abrir o abdômen.
As biópsias também mostraram algo decisivo: ao retirar o glúten, a mucosa podia se regenerar. Quando o paciente voltava a consumi-lo, a lesão reaparecia.
O invisível tornara-se visível — e, sobretudo, mensurável.
Doença Celíaca Autoimune: tTG, HLA-DQ2 e HLA-DQ8
Mesmo depois da identificação do glúten e da atrofia das vilosidades, a doença celíaca ainda foi descrita durante décadas como uma intolerância alimentar ou uma forma incomum de má digestão.
Aos poucos, essa interpretação mudou.
Estudos genéticos revelaram uma associação muito forte com determinadas moléculas do sistema HLA, especialmente HLA-DQ2 e HLA-DQ8. Elas não causam a doença sozinhas: são relativamente frequentes na população, e a maioria de seus portadores jamais desenvolverá celiaquia. Sua ausência, no entanto, torna o diagnóstico bastante improvável.
O avanço decisivo ocorreu em 1997. Walburga Dieterich, Tobias Ehnis, Detlef Schuppan e colaboradores identificaram a transglutaminase tecidual, ou tTG, como o principal autoantígeno reconhecido pelos anticorpos endomisiais.
A descoberta ajudou a explicar uma interação especialmente engenhosa — e destrutiva.
No intestino, a transglutaminase modifica certos fragmentos de gliadina por um processo chamado desamidação. Esses fragmentos passam a se ligar com maior afinidade às moléculas HLA-DQ2 ou HLA-DQ8 das células apresentadoras de antígenos. Linfócitos T são ativados, mediadores inflamatórios são liberados e a resposta imune passa a lesar a própria mucosa intestinal.
A tTG não é apenas uma enzima envolvida no processo. Ela também se torna alvo de autoanticorpos, o que explica por que os testes antitransglutaminase são tão úteis na prática clínica.
A doença celíaca passou, então, a ser entendida como uma enteropatia crônica, imunomediada e autoimune, desencadeada pelo glúten em pessoas geneticamente predispostas.
Isso não significa que todos os seus mecanismos estejam completamente decifrados. Ainda investigamos por que apenas uma parcela dos indivíduos geneticamente suscetíveis adoece, quais fatores ambientais participam dessa transição e por que as manifestações variam tanto — da diarreia clássica à anemia, osteoporose, infertilidade, alterações neurológicas ou absoluta ausência de sintomas digestivos.
O grande enigma foi resolvido, mas algumas peças continuam sobre a mesa.
História da Doença Celíaca: o Legado de Areteu
A história da doença celíaca não avançou em linha reta. Houve períodos de esquecimento, hipóteses equivocadas, dietas estranhas, descobertas simultâneas e observações corretas interpretadas pelos motivos errados.
Areteu descreveu a “fome do corpo”, mas atribuiu a doença à perda do calor natural. Samuel Gee percebeu que o tratamento dependeria da alimentação, embora não soubesse qual alimento retirar. As dietas de banana funcionaram para algumas crianças, mas seus defensores não compreenderam que o benefício vinha da substituição dos cereais.
Dicke reconheceu o efeito nocivo do trigo. Weijers, van de Kamer e o grupo de Birmingham ajudaram a separar o amido da fração proteica. Paulley revelou a mucosa achatada. Royer, Shiner, Crosby e Kugler tornaram possível observá-la em pacientes vivos. Décadas mais tarde, Dieterich, Schuppan e seus colaboradores encontraram o autoantígeno que conectava o glúten à autoimunidade.
Nenhum deles resolveu o mistério sozinho.
Talvez essa seja a parte mais humana dessa jornada. A ciência raramente avança como uma súbita iluminação. Ela progride quando alguém observa um detalhe, outro pesquisador questiona a explicação, um terceiro cria a ferramenta necessária e uma geração seguinte enxerga o que antes era impossível ver.
Passaram-se quase dois mil anos entre a descrição de um homem “atormentado nas entranhas” e a identificação molecular da transglutaminase tecidual.
Apesar de toda essa transformação, o tratamento continua essencialmente dietético: excluir de forma permanente e rigorosa o glúten desencadeante. Gee o intuiu. Dicke ajudou a demonstrá-lo. A biologia molecular explicou por que funciona.
Quando releio a descrição de Areteu, o que mais chama minha atenção não é o erro de sua teoria. É a precisão de seu olhar. Sem exames, ele percebeu que aquele paciente não sofria simplesmente de diarreia. Sofria de uma fome que persistia apesar da comida.
E isso nos deixa uma pergunta desconfortável, mas fascinante: quantas doenças que hoje chamamos de “idiopáticas” talvez estejam apenas esperando a tecnologia adequada — ou um observador suficientemente atento — para revelar sua verdadeira natureza?
Referências históricas e científicas
- García-Nieto VM. A History of Celiac Disease. In: Celiac Disease and Non-Celiac Gluten Sensitivity. OmniaScience; 2014.
- Losowsky MS. A history of coeliac disease. Digestive Diseases. 2008;26:112–120.
- Gee S. On the coeliac affection. St. Bartholomew’s Hospital Reports. 1888;24:17–20.
- Dicke WK, Weijers HA, van de Kamer JH. Coeliac disease: the presence in wheat of a factor having a deleterious effect in cases of coeliac disease. Acta Paediatrica. 1953;42:34–42.
- Paulley JW. Observation on the aetiology of idiopathic steatorrhoea: jejunal and lymph-node biopsies. British Medical Journal. 1954;2:1318–1321.
- Shiner M. Duodenal biopsy. The Lancet. 1956;270:17–19.
- Dieterich W, Ehnis T, Bauer M, et al. Identification of tissue transglutaminase as the autoantigen of celiac disease. Nature Medicine. 1997;3:797–801.
PERGUNTAS & RESPOSTAS
1. O que é a doença celíaca?
A doença celíaca é uma condição crônica, imunomediada e autoimune. Em pessoas geneticamente predispostas, a ingestão de glúten desencadeia uma resposta imunológica que pode lesar a mucosa do intestino delgado. Ela não deve ser confundida com alergia ao trigo nem com sensibilidade não celíaca ao glúten, pois são condições diferentes.
2. Quem descreveu a doença celíaca pela primeira vez?
O primeiro relato reconhecível costuma ser atribuído a Areteu da Capadócia, médico que provavelmente viveu no século II d.C. Ele descreveu pacientes com fraqueza, emagrecimento e eliminação de alimentos mal digeridos. Embora não conhecesse o glúten, Areteu percebeu a inanição paradoxal provocada pela malabsorção intestinal.
3. Quem descobriu a relação entre glúten e doença celíaca?
O pediatra holandês Willem-Karel Dicke associou o consumo de trigo à piora da doença. Suas observações começaram antes da Segunda Guerra Mundial e ganharam força durante o Inverno da Fome de 1944–1945. Posteriormente, Dicke, H. A. Weijers, J. H. van de Kamer e outros pesquisadores demonstraram que o componente prejudicial estava na fração proteica de determinados cereais: o glúten.
4. Como a doença celíaca é diagnosticada atualmente?
A investigação geralmente começa com a dosagem de anticorpos antitransglutaminase tecidual IgA e de IgA total, enquanto o paciente ainda consome glúten. Nos adultos, o diagnóstico costuma ser confirmado por endoscopia com múltiplas biópsias duodenais. Em crianças criteriosamente selecionadas, diretrizes especializadas admitem diagnóstico sem biópsia quando os títulos de anticorpos são muito elevados e os demais critérios são atendidos. Retirar o glúten antes da investigação pode produzir resultados falsamente negativos.
5. A doença celíaca tem cura?
Ainda não existe uma cura capaz de eliminar definitivamente a predisposição imunológica. O tratamento estabelecido é uma dieta estritamente sem glúten por toda a vida, incluindo o cuidado com contaminação cruzada. A exclusão adequada permite que a mucosa intestinal se regenere, reduz sintomas e diminui o risco de deficiências nutricionais e outras complicações.