Sexta, 22 Dezembro 2017 08:36

A Epidemia Oculta da Sensibilidade não Celíaca ao Glúten Destaque

Escrito por
Avalie este ítem
(2 Votos)

Um dos grandes problemas relacionados ao que se designa Sensibilidade não Celíaca ao Glúten-Trigo (SNCG-T) é a falta de biomarcadores, o que faz com que a prevalência desta afecção permaneça vaga e em grande parte variável de centro para centro como resultado de um diagnóstico clínico autônomo.

No entanto, com base nos poucos estudos até agora publicados, a SNCG parece ser um pouco mais comum do que a própria Doença Celíaca (que afeta cerca de 1% do população geral mundial). Sem muita surpresa, a freqüência de SNCG-T é mais alta nos centros de cuidados terciários (até 6%) do que nos primários (até 0,6%), muito provavelmente porque os pacientes procuram aconselhamento médico de especialistas, pois acreditam que eles podem fornecer uma melhor gestão desse problema mal definido. 

O único estudo multicêntrico de cuidados terciários comparando novos casos de suspeita de SNCG-T e Doença Celíaca em um período de 1 ano mostrou uma prevalência ligeiramente maior da primeira (3,2%) do que a segunda (2,8%) em mais de 12 mil indivíduos adultos e pediátricos. Em comparação com pacientes pediátricos, a pesquisa indicou que a SNCG-T é muito mais freqüente em adultos com predominância nos do sexo feminino (razão feminino/masculino foi de 5:1).

Na grande maioria dos casos, o quadro clínico da SNCG-T é caracterizado tanto por sintomas gastrointestinais quanto por manifestações extra intestinais, que ocorrem algumas horas até alguns dias após a ingestão de glúten/trigo. Estas queixas melhoram drasticamente após a retirada glúten/trigo e tende a recidiva após o desafio do glúten/trigo. 

Uma coisa é importante, antes de se considerar a SNCG-T como um possível diagnóstico, um passo crucial é a exclusão dos diagnósticos de Doença Celíaca eda Alergia ao Trigo por meio de investigações que devem ser realizadas quando os pacientes ainda estão em uma dieta contendo glúten. Os sintomas gastrointestinais relatados pelos pacientes com SNCG-T se sobrepõem com os observados na Síndrome do Intestino Irritável, incluindo inchaço e dor abdominal/desconforto (detectado em mais de 80% dos casos) e anormalidades do hábito intestinal como diarréia, intestino com alternância e constipação (encontrados em até 50% de casos). Como já era conhecido na Síndrome do Intestino Irritável, uma grande proporção de pacientes com SNCG-T exibe intolerância à lactose e, em menor grau, à frutose, conforme foi determinado por testes de respiração. Uma menor proporção de pacientes com SNCG-T (de 30% a 50%) queixam-se de manifestações do trato gastrointestinal superior, por exemplo, vômitos, náuseas, refluxo gastroesofágico, aerofagia e estomatite aftosa.

Já as manifestações extra intestinais de SNCG-T afetam uma ampla gama de órgãos/sistemas do corpo humano, com o sistema nervoso, pele e articulações/músculos sendo mais afetados.

As manifestações neurológicas, incluindo dor de cabeça, ansiedade, mente nebulosa e dormência são as mais freqüentemente relatadas, presente em 30 a 50% dos casos. 

O envolvimento articular/muscular com as características típicas de uma síndrome de fibromialgia e erupção cutânea juntamente com dermatite são observadas em até 30% dos casos. 

A grande maioria dos pacientes (mais de 80%) se queixa de fadiga e fraqueza, que podem estar associada à anemia. Uma história clínica anterior do comportamento alimentar ao distúrbio é detectada em menos de 10% dos casos, enquanto mais freqüentemente os pacientes relatam ansiedade e depressão que, muitas vezes, requerem tratamento farmacológico. 

Alguns relatos têm a hipótese que o autismo pode estar associado à SNCG-T. Apesar de relatórios anedóticos de melhoria na hiperatividade e letargia mental em resposta a dietas sem glúten e/ou caseína em alguns pacientes, o benefício para retirada de glúten/trigo ainda não foi estabelecido no autismo. 

Embora uma baixa freqüência de pacientes apresenta manifestações alérgicas evidentes, como asma e rinite (cerca de 10%), mais de 20% dos casos de SNCG-T são positivos para o teste de laboratório de alergia mediada por IgE, incluindo-se o leite e as proteínas de marisco, bem como outras moléculas alimentares. Estes achados apoiam a possibilidade de que um subgrupo de pacientes com SNCG-T possa ser considerado afetado por hipersensibilidade alimentar múltipla, envolvendo não só glúten e o trigo, mas uma grande variedade de alimentos. Nesta linha, demonstrou-se que a injeção submucosa de leite, trigo, levedura e soja no o duodeno de pacientes com Síndrome do Intestino Irritável evoca uma rápida ocorrência de quebras e aumento da infiltração de linfócitos intra-epiteliais (IELs), apoiando um papel para múltiplas hipersensibilidades alimentares no ampla espectro de distúrbios gastrointestinais funcionais, muitas vezes sobrepostos com a SNCG-T. UMA

A revisão sistemática da literatura revela que pacientes com SNCG-T apresentam sinais laboratoriais de má absorção com baixos níveis de ferritina (16-23%) e vitamina D (11-16%) e deficiência de folato (7-11%), o que pode ser atribuído plausivelmente à microinflamação da mucosa do intestino delgado. As anormalidades bioquímicas que refletem uma má absorção subclínica são freqüentemente associadas à osteopenia detectável por densitometria óssea. Uma proporção de pacientes com SNCG-T (12-18%) têm história familiar de Doença Celíaca. Na verdade, da mesma forma que a Doença Celíaca, um vínculo estreito com a autoimunidade foi demonstrado por dois estudos recentes que relataram uma alta prevalência de anticorpos antinucleares (37-46%) e distúrbios autoimunes.

Referências:

  1. Sapone A, Bai JC, Ciacci C, et al. Spectrum of gluten-related disorders: consensus on new nomenclature and classification. BMC Med 2012; 10:13.
  2. Catassi C, Bai JC, Bonaz B, at al. Non-celiac gluten sensitivity: the new frontier of gluten related disorders. Nutrients 2013; 5:3839-53. 
  3. Catassi C, Elli L, Bonaz B, et al. How the diagnosis of non-celiac gluten sensitivity (NCGS) should be confirmed: the Salerno experts’ criteria. Nutrients 2015; 74966-77.
  4. Carroccio A, Mansueto P, Iacono G, et al. Non-celiac wheat sensitivity diagnosed by double-blind placebo-controlled challenge: exploring a new clinical entity. Am J Gastroenterol 2012; 107:1898-906.
  5. Molina-Infante J, Santolaria S, Sanders DS, Fernández-Bañares F. Systematic review: noncoeliac gluten sensitivity. Aliment Pharmacol Ther 2015; 41:807-20.
  6. Volta U, Tovoli F, Cicola R, et al. Serological tests in gluten sensitivity (nonceliac gluten intolerance). J Clin Gastroenterol 2012; 46:680-85.
  7. Fasano A, Catassi C. Clinical practice. Celiac disease. N Engl J Med 2012; 367:2419-26.
  8. Volta U, Bardella MT, Calabrò A, et al. An Italian prospective multicenter survey on patients suspected of having non-celiac gluten sensitivity. BMC Med 2014; 12:85.
  9. DiGiacomo DV, Tennyson CA, Green PH, et al. Prevalence of gluten-free diet adherence among individuals without celiac disease in the USA: results from the Continuous National Health and Nutrition Examination Survey 2009-2010. Scand J Gastroenterol 2013; 48:921- 5.
  10. Czaja-Bulsa G. Non celiac gluten sensitivity – A new disease with gluten intolerance. Clin Nutr 2015; 34:189-94.
  11. Makharia A, Catassi C, Makharia GK. The overlap between irritable bowel syndrome and non-celiac gluten sensitivity: a clinical dilemma. Nutrients 2015; 7:10427-26.
  12. De Giorgio R, Volta U, Gibson PR. Sensitivity to wheat, gluten and FODMAPs in IBS: facts or fiction? Gut 2016; 65:169-178.
  13. Hadjivassiliou M, Rao DG, Grünewald RA, et al. Neurological dysfunction in coeliac disease and non-coeliac gluten sensitivity. Am J Gastroenterol 2016; 111:561-7.
  14. Rodrigo L, Blanco I, Bobes J, et al. Effect of one year of a gluten-free diet on the clinical evolution of irritable bowel syndrome plus fibromyalgia in patients with associated lymphocytic enteritis: a case-control study. Arthritis Res Ther 2014; 16:421.
  15. Bonciolini V, Bianchi B, Del Bianco E, et al. Cutaneous manifestations of non-coeliac gluten sensitivity: clincal, histological and immunopathological features. Nutrients 2015; 7:7798- 805.
  16. Daulatzai MA. Non-celiac gluten sensitivity triggers gut dysbiosis, neuroinflammation, gutbrain axis dysfunction, and vulnerability for dementia. CNS Neurol Disord Drug Targets 2015; 14:110-31.
  17. Lau NM, Green PH, Taylor AK, et al. Markers of celiac disease and gluten sensitivity in children with autism. PLoS One 2013; 8(6):e66155.
  18. Buie T. The relationship of autism and gluten. Clin Ther 2013; 35:578-83.
  19. Fritscher-Ravens A, Schuppan D, Ellrichmann M, et al. Confocal endomicroscopy shows food-associated changes in the intestinal mucosa of patients with irritable bowel syndrome. Gastroenterology 2014; 147:1012-20.
  20. Aziz I, Lewis NR, Hadjivassiliou M, et al. A UK study assessing the population prevalence of self-reported gluten sensitivity and referral characteristics to secondary care. Eur J Gastroenterol Hepatol 2014;26:33-9.
  21. Kabbani TA, Vanga RR, Leffler DA, et al. Celiac disease or non-celiac gluten sensitivity ? An approach to clinical differential diagnosis. Am J Gastroenterol 2014; 109:741-6.
  22. Carroccio A, Soresi M, D'Alcamo A, et al. Risk of low bone mineral density and low body mass index in patients with non-celiac wheat-sensitivity: a prospective observation study. BMC Med 2014; 12:230.
  23. Carroccio A, D'Alcamo A, Cavataio F, et al. High proportions of people with nonceliac wheat sensitivity have autoimmune disease or antinuclear antibodies. Gastroenterology 2015; 149:596-603.
  24. Volta U, Caio G, De Giorgio R. Is Autoimmunity More Predominant in Nonceliac Wheat Sensitivity Than Celiac Disease? Gastroenterology 2016; 150:282.
  25. Lebwohl B, Ludvigsson JF, Green PH. Celiac disease and non-celiac gluten sensitivity. BMJ 2015; 351:h4347. 

 

Lido 161 vezes Última modificação em Sexta, 22 Dezembro 2017 09:20
Dr. Renato Riccio

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Medicina Funcional e Integrativa com foco em Medicina do Estilo de Vida

www.drrenatoriccio.med.br

Deixe um comentário

Sobre o Equilibrium

O Centro Equilibrium - Medicina Individualizada vem realizando atendimento médico em Medicina Funcional com foco em Estilo de Vida há mais de 30 anos. Venha conhecer uma forma bem diferente de atendimento médico, que tem como foco a prevenção e a orientação do paciente, buscando juntamente com ele o atingimento de suas metas individuais.

Leia em Vitamina D

  • Deficiência de Vitamina D em homens pode aumentar o risco de cefaléia crônica

    Uma nova pesquisa européia sugere que a falta de vitamina D poderia ter outro efeito sobre a saúde, aumentando o risco de dor de cabeça crônica em homens.

  • Vitamina D e um sono bom e o gerenciamento da dor

    Após uma revisão das pesquisas publicadas sobre a relação entre vitamina D, sono e dor, os pesquisadores sugerem que a suplementação de vitamina D, juntamente com uma boa higiene do sono, pode oferecer uma maneira eficaz de administrar a dor em condições como artrite, dor nas costas crônica, fibromialgia e cólicas menstruais.

  • Menos radioterapia necessária se houver mais vitamina D (câncer de pulmão no laboratório) - março de 2017

    A vitamina D melhora a sensibilização do câncer de pulmão para a radioterapia

  • Vitamina D - novo estudo sugere que ela ajuda a diminuir o risco de câncer

    A vitamina D e o cálcio, há muito reconhecidos como importantes para a saúde óssea, atraíram o interesse clínico nos últimos anos por seus potenciais benefícios não esqueléticos, incluindo a prevenção do câncer.

  • Vitamina D permite prever a agressividade do câncer de próstata

    Pesquisadores americanos sugerem que há uma ligação entre os níveis baixos de vitamina D e a agressividade do câncer de próstata, é o que mostra um estudo publicado no “Journal of Clinical Oncology”.