Manteiga - afinal, ela é do bem ou do mal?

Nas últimas décadas, a manteiga tem sido implicada como uma causa significativa de doença cardíaca. No entanto, estudos fornecem resultados misturados e, se a manteiga realmente aumenta o risco de doença crônica, é calorosamente debatido.

Uma meta-análise recente examinou como o comer manteiga afeta doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e risco de mortalidade. Aqui está um resumo detalhado dos achados.

A manteiga é um produto lácteo feito de creme. É quase pura gordura de leite, e que consiste, principalmente, de ácidos graxos saturados. O papel da manteiga na saúde e na doença é incerto e calorosamente debatido. Vários estudos mostram que uma alta ingestão de gordura saturada está associada a um perfil lipídico pobre no sangue, que é um fator de risco para doença cardíaca.

Além disso, um ensaio controlado mostrou que uma alta ingestão de óleo de palma saturado, rica em ácido palmítico, causou maiores ganhos na gordura abdominal e do fígado, em comparação com a gordura poliinsaturada (1).

No entanto, as maiores e mais recentes meta-análises de estudos observacionais sugerem que a redução da gordura saturada tem efeitos neutros sobre a saúde, ao passo que a substituição por determinadas gorduras insaturadas pode ter benefícios (2).

Além disso, evidências crescentes sugerem que nem todas as gorduras saturadas são as mesmas e demonizar as gorduras saturadas como um todo é uma simplificação um tanto quanto excessiva.

No entanto, as orientações dietéticas oficiais continuam a recomendar uma ingestão mais baixa de todas as gorduras saturadas e maiores ingestões de gorduras não-hidrogenadas não saturadas (3).

Estudos sugerem que a manteiga é diferente de outras fontes de gordura láctea. Especificamente, a gordura na manteiga não está enclaururada em uma membrana de glóbulos de gordura do leite (MFGM - milk fat globule membrane).

Vários ensaios controlados randomizados mostram que comer gordura da manteiga tem piores efeitos sobre o perfil lipídico do sangue do que outras fontes de gordura láctea com um MFGM intacto, como creme ou queijo (4, 5, 6).

Se esses efeitos se traduzem em um risco elevado de hard endpoints, como ataques cardíacos, permanece obscuro.

Pimpin L, Wu JH, Haskelberg H, Del Gobbo L, Mozaffarian D. Is Butter Back? A Systematic Review and Meta-Analysis of Butter Consumption and Risk of Cardiovascular Disease, Diabetes, and Total Mortality. PLoS One. 2016 Jun 29;11(6):e0158118. doi: 10.1371/journal.pone.0158118. PubMed PMID: 27355649; PubMed Central PMCID: PMC4927102.

Desenho do Estudo

Esta foi uma revisão sistemática e meta-análise de estudos observacionais prospectivos e ensaios controlados randomizados que analisam a associação do consumo de manteiga com doenças cardíacas, diabetes e mortalidade. Os investigadores pesquisaram bases de dados científicas para todos os estudos relevantes que preencheram os critérios de exclusão. Na condução da análise, seguiram as diretrizes de Metanálise de Estudos Observacionais em Epidemiologia (MOOSE - Meta-analysis of Observational Studies in Epidemiology).

Foram selecionadas 9 publicações, totalizando 636.151 participantes. Não foram encontrados ensaios clínicos controlados randomizados com hard endpoints.

  1. A manteiga foi fracamente ligada com a morte por todas as causas: Dois grandes estudos observacionais avaliando as relações entre o consumo de manteiga e a mortalidade por todas as causas (morte) foram incluídos na meta-análise. Estes estudos incluíram um total de 379.763 participantes. A análise mostrou que o risco de morte aumentou em 1% para cada colher de sopa (14 gramas) de manteiga consumida diariamente. As grandes meta-análises anteriores, que analisavam os efeitos da ingestão total de gordura saturada, não encontraram efeitos significativos na mortalidade global (2, 7).
  2. A manteiga reduziu o risco do Diabetes: A análise incluiu quatro estudos que analisam as ligações entre o consumo de manteiga e diabetes tipo 2. Incluíram um total de 201.628 participantes. Juntando as conclusões desses estudos, os pesquisadores descobriram que uma maior ingestão de manteiga foi associada a uma diminuição modesta no risco de desenvolver diabetes tipo 2. Especificamente, o risco de diabetes tipo 2 diminuiu em 4% para cada colher (14 gramas) consumida diariamente. Outros estudos observacionais não encontraram associação entre a gordura láctea e a diabetes tipo 2, mas alguns sustentam os resultados atuais, relatando um risco reduzido com maiores ingestões (8, 9, 10, 11).
  3. A manteiga não foi ligada à doença cardíaca: Cinco dos estudos incluídos investigou a associação da manteiga com doença cardíaca. Quando seus resultados foram combinados, a ingestão de manteiga não foi significativamente associada com doenças cardíacas, incluindo acidente vascular cerebral e doença coronariana. Esses achados são apoiados por metanálises anteriores (12, 13).

Comentários

  • A principal limitação desta meta-análise foi o desenho observacional dos estudos incluídos. Estudos observacionais não podem demonstrar causalidade.
  • Uma vez que o elevado consumo de manteiga está geralmente associado a padrões alimentares e hábitos de estilo de vida pouco saudáveis, o estudo pode ter superestimado a associação da manteiga com a mortalidade e/ou subestimado as suas ligações com a diabetes tipo 2.

Considerações Finais

Esta análise sugere que a manteiga é neutra quando se trata do risco de desenvolver doença cardíaca. Além disso, foi associada com um menor risco de diabetes tipo 2, mas um risco ligeiramente elevado de mortalidade global. Uma vez que esses achados foram baseados em estudos observacionais, eles devem ser tomados com muito cuidado.

Deve-se notar que o elevado risco de mortalidade associado à manteiga é relativamente pequeno em comparação com muitos outros alimentos, como grãos refinados e açúcar.

Em conclusão, parece que não há nenhuma razão convincente para evitar a manteiga. Quantidades moderadas parece estar dentro do aceitável. No entanto, se você comer em demasia, pode ser sábio substituí-la por óleos que possuem comprovados benefícios para a saúde, como o azeite.

 

Referências:

  1. Rosqvist F, Iggman D, Kullberg J, Cedernaes J, Johansson HE, Larsson A, Johansson L, Ahlström H, Arner P, Dahlman I, Risérus U. Overfeeding polyunsaturated and saturated fat causes distinct effects on liver and visceral fat accumulation in humans. Diabetes. 2014 Jul;63(7):2356-68. doi: 10.2337/db13-1622. PubMed PMID: 24550191.
  2. Hooper L, Martin N, Abdelhamid A, Davey Smith G. Reduction in saturated fat intake for cardiovascular disease. Cochrane Database Syst Rev. 2015 Jun 10;(6):CD011737. doi: 10.1002/14651858.CD011737. Review. PubMed PMID: 26068959. 
  3. https://health.gov/dietaryguidelines/2015-scientific-report/pdfs/scientific-report-of-the-2015-dietary-guidelines-advisory-committee.pdf 
  4. Rosqvist F, Smedman A, Lindmark-Månsson H, Paulsson M, Petrus P, Straniero S, Rudling M, Dahlman I, Risérus U. Potential role of milk fat globule membrane in modulating plasma lipoproteins, gene expression, and cholesterol metabolism in humans: a randomized study. Am J Clin Nutr. 2015 Jul;102(1):20-30. doi: 10.3945/ajcn.115.107045. PubMed PMID: 26016870. 
  5. Nestel PJ, Chronopulos A, Cehun M. Dairy fat in cheese raises LDL cholesterol less than that in butter in mildly hypercholesterolaemic subjects. Eur J Clin Nutr. 2005 Sep;59(9):1059-63. PubMed PMID: 16015270.  Hjerpsted J, Leedo E, Tholstrup T. Cheese intake in large amounts lowers LDL-cholesterol concentrations compared with butter intake of equal fat content. Am J Clin Nutr. 2011 Dec;94(6):1479-84. doi: 10.3945/ajcn.111.022426. PubMed PMID: 22030228. 
  6. Hjerpsted J, Leedo E, Tholstrup T. Cheese intake in large amounts lowers LDL-cholesterol concentrations compared with butter intake of equal fat content. Am J Clin Nutr. 2011 Dec;94(6):1479-84. doi: 10.3945/ajcn.111.022426. PubMed PMID: 22030228.

  7. O'Sullivan TA, Hafekost K, Mitrou F, Lawrence D. Food sources of saturated fat and the association with mortality: a meta-analysis. Am J Public Health. 2013 Sep;103(9):e31-42. doi: 10.2105/AJPH.2013.301492. PubMed PMID: 23865702; PubMed Central PMCID: PMC3966685.  
  8. Chen M, Sun Q, Giovannucci E, Mozaffarian D, Manson JE, Willett WC, Hu FB. Dairy consumption and risk of type 2 diabetes: 3 cohorts of US adults and an updated meta-analysis. BMC Med. 2014 Nov 25;12:215. doi: 10.1186/s12916-014-0215-1. PubMed PMID: 25420418; PubMed Central PMCID: PMC4243376. 
  9. Sluijs I, Forouhi NG, Beulens JW, van der Schouw YT, Agnoli C, Arriola L, Balkau B, Barricarte A, Boeing H, Bueno-de-Mesquita HB, Clavel-Chapelon F, Crowe FL, de Lauzon-Guillain B, Drogan D, Franks PW, Gavrila D, Gonzalez C, Halkjaer J, Kaaks R, Moskal A, Nilsson P, Overvad K, Palli D, Panico S, Quirós JR, Ricceri F, Rinaldi S, Rolandsson O, Sacerdote C, Sánchez MJ, Slimani N, Spijkerman AM, Teucher B, Tjonneland A, Tormo MJ, Tumino R, van der A DL, Sharp SJ, Langenberg C, Feskens EJ, Riboli E, Wareham NJ; InterAct Consortium.. The amount and type of dairy product intake and incident type 2 diabetes: results from the EPIC-InterAct Study. Am J Clin Nutr. 2012 Aug;96(2):382-90. PubMed PMID: 22760573. 
  10. Aune D, Norat T, Romundstad P, Vatten LJ. Dairy products and the risk of type 2 diabetes: a systematic review and dose-response meta-analysis of cohort studies. Am J Clin Nutr. 2013 Oct;98(4):1066-83. doi: 10.3945/ajcn.113.059030. Review. PubMed PMID: 23945722. 
  11. Yakoob MY, Shi P, Willett WC, Rexrode KM, Campos H, Orav EJ, Hu FB, Mozaffarian D. Circulating Biomarkers of Dairy Fat and Risk of Incident Diabetes Mellitus Among Men and Women in the United States in Two Large Prospective Cohorts. Circulation. 2016 Apr 26;133(17):1645-54. doi: 10.1161/CIRCULATIONAHA.115.018410. PubMed PMID: 27006479; PubMed Central PMCID: PMC4928633. 
  12. Qin LQ, Xu JY, Han SF, Zhang ZL, Zhao YY, Szeto IM. Dairy consumption and risk of cardiovascular disease: an updated meta-analysis of prospective cohort studies. Asia Pac J Clin Nutr. 2015;24(1):90-100. doi: 10.6133/apjcn.2015.24.1.09. PubMed PMID: 25740747. 
  13. Hu D, Huang J, Wang Y, Zhang D, Qu Y. Dairy foods and risk of stroke: a meta-analysis of prospective cohort studies. Nutr Metab Cardiovasc Dis. 2014 May;24(5):460-9. doi: 10.1016/j.numecd.2013.12.006. PubMed PMID: 24472634.

 

 

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